A alegria é um estado da ignorância. Vive
melhor quem se desconecta da realidade do mundo; vive melhor quem se torna
inconsciente da situação real da vida e de tudo o que acontece à sua volta. A
alegria é poder espelhar na vida o completo alheamento da realidade e
mergulhar, absorto em uma consciência própria, em uma realidade paralela cujos
parâmetros são eles próprios definidos pela subjetividade e pela inconstância,
pelo viés pessoal, desprovida de qualquer cognição e discernimento. Alegre é o
pobre de espírito porque desconhece o poder da vida e o alcance da mente. A
lucidez é uma forma de alucinação; ser doido nos deixa feliz porque nos torna
normais. A loucura faz parte da natureza humana, como ser feliz faz parte da
natureza do sábio. Quem pensa, raciocina e interpreta a vida é necessariamente
doido porque não há mais nada que seja mentalmente saudável do que cultivar
parcimoniosamente a loucura, enxergando novas meta-realidades além de uma
realidade que perece sob o nosso olhar.
- Pai, será que existe vida extraterrestre?
– indagou Ernesto.
- Sem dúvida, filho – respondeu Armênio.
- Será que algum dia eles nos vêm visitar?
- Acredito filho que eles sempre estiveram
conosco – comentou Ernesto.
- A sério? - Ernesto franziu o rosto,
levantando singelamente o sobrolho. – E porque nós nunca os vemos?
- Porque os nossos olhos não estão
preparados para vê-los. Muito provavelmente não são como nós e os nossos
instrumentos nãos os conseguem enxergar porque eles foram feitos para
procurarmos seres com a nossa forma. Alguns deles existem em dimensões de que
não nos apercebemos. São seres de luz e energia que por vezes se comunicam
conosco de forma hipnótica, em estados de transe ou que aparecem nos sonhos
para nos avisar sobre alguma coisa que está errada nas nossas vidas; é assim
que se comunicam conosco.
- E nós temos que preparar os nossos olhos?
– inquiriu Ernesto. – Os nossos olhos não veem simplesmente assim tudo?
- Não, Ernesto, precisamos ensinar os
nossos olhos a ver aquilo que vai além dos nossos sentidos, a pensar sem ser
com a razão e a não julgar o que está defronte de nós. É o cérebro que comanda
os olhos, então temos que exercitar o cérebro para que analise sem julgar.
- E alguma vez eles me virão visitar? –
continuou Ernesto.
- Não sei, serás antes tu que deverás
aprender a esperar por eles, mas tendo sempre o cuidado de ver com quem vais contatar,
porque nem todos virão com boas intenções.
- Por quê? Eles não veem com boas
intenções?
- Nem todos trazem as boas intenções,
alguns são apenas colonizadores, outros exploradores, outros que nos buscam
para experiências ou até para se reproduzirem e viverem conosco. Alguns nos
trarão a guerra e a destruição. Como o fizeram há muitos milhares de anos,
serão os reis da destruição divina. Um dia aprenderás a distinguir as coisas,
sem pensar no que é certo ou errado, no que é bom ou é mau... Existem seres
extraterrestres como nós, com corpo físico e existem seres que são apenas luz e
energia, sem nada corpóreo; esses são a forma mais elevada da criação no
Universo, à qual só muito mais tarde teremos conseguido atingir, Ernesto.
- Em
quantos anos?
Armênio riu da ingenuidade pueril na
pergunta do filho.
Só daqui a muitos milhares de anos, talvez
até milhões de anos... – explicou.
A tarde caia serena num céu pincelado de
alvas nuvens num cortejo plácido comandado pelo vento. Dirigiam-se de algures
para nenhures e já deixavam antever a noite que se começava a iluminar nos
postes; era o período em que mais gostavam de sair, finda a jornada de trabalho
de Armênio, quando então tinha tempo livre para se dedicar ao filho. Ernesto e
Armênio adoravam partilhar singelamente essa experiência de pai e filho
enquanto muitas vezes o mundo ao seu redor se desenhava languidamente entre a
civilização e a abóbada estelar onde novos mundos se reinventariam a cada
instante no compasso de música harmoniosamente composta pelo Universo e o seu
Nada Brahma. Armênio vivia intensamente essa relação incompleta da família,
projetando em Ernesto a impressão marcada de Maria Antónia que ainda se fazia
presente. Sabia que um dia não seria mais assim, que Ernesto teria a sua vida,
que também ele se lançaria pelo mundo como ele próprio o havia feito muito
tempo antes; um dia, ele seria esse Homem do Amanhã. Filhos são tesouros
emprestados; nunca serão nossos. Nosso é apenas o prazer da companhia que eles
nos legam.
MARIANO MENDONÇA LOPES [Excerto do meu romance, As Faces de Maya, publicado em 2022]