quarta-feira, 24 de junho de 2026

Romance - AS FACES DE MAYA


 A alegria é um estado da ignorância. Vive melhor quem se desconecta da realidade do mundo; vive melhor quem se torna inconsciente da situação real da vida e de tudo o que acontece à sua volta. A alegria é poder espelhar na vida o completo alheamento da realidade e mergulhar, absorto em uma consciência própria, em uma realidade paralela cujos parâmetros são eles próprios definidos pela subjetividade e pela inconstância, pelo viés pessoal, desprovida de qualquer cognição e discernimento. Alegre é o pobre de espírito porque desconhece o poder da vida e o alcance da mente. A lucidez é uma forma de alucinação; ser doido nos deixa feliz porque nos torna normais. A loucura faz parte da natureza humana, como ser feliz faz parte da natureza do sábio. Quem pensa, raciocina e interpreta a vida é necessariamente doido porque não há mais nada que seja mentalmente saudável do que cultivar parcimoniosamente a loucura, enxergando novas meta-realidades além de uma realidade que perece sob o nosso olhar.

 - Pai, será que existe vida extraterrestre? – indagou Ernesto.

 - Sem dúvida, filho – respondeu Armênio.

 - Será que algum dia eles nos vêm visitar?

 - Acredito filho que eles sempre estiveram conosco – comentou Ernesto.

 - A sério? - Ernesto franziu o rosto, levantando singelamente o sobrolho. – E porque nós nunca os vemos?

 - Porque os nossos olhos não estão preparados para vê-los. Muito provavelmente não são como nós e os nossos instrumentos nãos os conseguem enxergar porque eles foram feitos para procurarmos seres com a nossa forma. Alguns deles existem em dimensões de que não nos apercebemos. São seres de luz e energia que por vezes se comunicam conosco de forma hipnótica, em estados de transe ou que aparecem nos sonhos para nos avisar sobre alguma coisa que está errada nas nossas vidas; é assim que se comunicam conosco.

 - E nós temos que preparar os nossos olhos? – inquiriu Ernesto. – Os nossos olhos não veem simplesmente assim tudo?

 - Não, Ernesto, precisamos ensinar os nossos olhos a ver aquilo que vai além dos nossos sentidos, a pensar sem ser com a razão e a não julgar o que está defronte de nós. É o cérebro que comanda os olhos, então temos que exercitar o cérebro para que analise sem julgar.

 - E alguma vez eles me virão visitar? – continuou Ernesto.

 - Não sei, serás antes tu que deverás aprender a esperar por eles, mas tendo sempre o cuidado de ver com quem vais contatar, porque nem todos virão com boas intenções.

 - Por quê? Eles não veem com boas intenções?

 - Nem todos trazem as boas intenções, alguns são apenas colonizadores, outros exploradores, outros que nos buscam para experiências ou até para se reproduzirem e viverem conosco. Alguns nos trarão a guerra e a destruição. Como o fizeram há muitos milhares de anos, serão os reis da destruição divina. Um dia aprenderás a distinguir as coisas, sem pensar no que é certo ou errado, no que é bom ou é mau... Existem seres extraterrestres como nós, com corpo físico e existem seres que são apenas luz e energia, sem nada corpóreo; esses são a forma mais elevada da criação no Universo, à qual só muito mais tarde teremos conseguido atingir, Ernesto.

  - Em quantos anos?

 Armênio riu da ingenuidade pueril na pergunta do filho.

 Só daqui a muitos milhares de anos, talvez até milhões de anos... – explicou.

 A tarde caia serena num céu pincelado de alvas nuvens num cortejo plácido comandado pelo vento. Dirigiam-se de algures para nenhures e já deixavam antever a noite que se começava a iluminar nos postes; era o período em que mais gostavam de sair, finda a jornada de trabalho de Armênio, quando então tinha tempo livre para se dedicar ao filho. Ernesto e Armênio adoravam partilhar singelamente essa experiência de pai e filho enquanto muitas vezes o mundo ao seu redor se desenhava languidamente entre a civilização e a abóbada estelar onde novos mundos se reinventariam a cada instante no compasso de música harmoniosamente composta pelo Universo e o seu Nada Brahma. Armênio vivia intensamente essa relação incompleta da família, projetando em Ernesto a impressão marcada de Maria Antónia que ainda se fazia presente. Sabia que um dia não seria mais assim, que Ernesto teria a sua vida, que também ele se lançaria pelo mundo como ele próprio o havia feito muito tempo antes; um dia, ele seria esse Homem do Amanhã. Filhos são tesouros emprestados; nunca serão nossos. Nosso é apenas o prazer da companhia que eles nos legam.


MARIANO MENDONÇA LOPES [Excerto do meu romance, As Faces de Maya, publicado em 2022]

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